SEM PALAVRAS VAZIAS CHEIRANDO A VINHO BARATO


Ela queria que eu a acompanhasse naquela maldita festa. Falou que seria diferente daquelas mesmas confraternizações onde se distribuíam palavras vazias cheirando à vinho barato. Não acreditei, mas fomos.
Depois de duas horas, falta de cerveja, uma queda de luz, e dar ouvidos para assuntos de pessoas egocêntrica sobre seus filhos que viajavam para o exterior em busca de uma “carreira sólida”, a encarei com um sorriso irônico de vitória. Ela sorriu de volta e fomos para casa. Mas felizes. Por saber que éramos diferentes. Que éramos melhores do que aquilo.

UMA DESPEDIDA DAS COISAS QUE NÃO SERVEM PARA COISA ALGUMA


Na hora achei apenas curioso. Porém, após o observar por alguns segundos, a surpresa deu lugar a uma espécie de medo, tamanha era a semelhança daquele cara comigo. Me aproximei.

- Olá – falei.

- Olá – respondeu automaticamente, sem demonstrar nenhum espanto por olhar para alguém exatamente igual.

Ele voltou os olhos para o jornal, e vi a cicatriz em sua nunca. A mesma que a minha. Sentei junto dele.

- Desculpe, o senhor...

Ele me encarou,  interrompendo.

- Desculpe, o senhor...

Sorri.

Ele sorriu.

- Qual o seu nome? – perguntei.

- Qual o seu nome? – disse minha cópia.

- Isso é brincadeira – falei sem jeito.

- Isso é brincadeira.

Fiquei imóvel o encarando e tentando entender que diabos era aquilo. Ele fez o mesmo. Apenas me encarou. Fiquei sério. Ele também. Fiz de conta que ele nem estivesse ali. O ignorei e pedi um café para mim. Então ele voltou os olhos para o jornal, também me ignorando. Terminei meu café e levantei para ir embora. Ao chegar à porta, o homem parou ao meu lado. Acendi um cigarro e ofereci outro. Ele ignorou e saiu caminhando em silêncio. Quando dobrou a esquina, entrei no meu carro e fui para casa. Me sentia leve. Esquisitamente calmo. Parecia que tirara um peso dos ombros. Liguei para Niquei, minha esposa, apenas para ouvir sua voz, e ela estava eufórica, dizendo que havia encontrado uma mulher igual a ela na saída do trabalho e que, por algum motivo, depois daquele encontro estranho ela se sentia mais tranquila consigo mesma. Disse que me amava. Eu disse o mesmo e desliguei. Aumentei o volume do rádio. Tocava Aretha Flanklin, se não me engano. Sim, era Aretha.

PSICOINSISTÊNCIA


- Até quando preciso dizer que não rolou nada?
- Até você não aguentar mais ouvir a própria mentira.

O DIABO FOI PRO BAR


Eu tinha consciência que podia estar agindo como um maníaco. Mas como todo mundo é maníaco, segui observando a moça à distância. Ela estava na calçada, esperando alguém. Eu tomava minha cerveja do outro lado da rua. Estava apaixonado. Talvez ela também estivesse. Ou não. Talvez ela quisesse se apaixonar, por isso aquele vestido curto. Justo. Um semideus parado na calçada. Brilhava.
Então ela fez uma careta para o telefone e seguiu caminhando apressada. Fui atrás. Ela parou em uma esquina. Olhou novamente para o telefone. Senti sua tristeza sendo expelida pela sua aura. Ela entrou em um bar. Eu adoro mulheres que entram em bares sozinhas. Confiantes. Independentes, saca? Aliás, adoro todas as pessoas que entram em algum bar sozinhas, ao contrário de quem sente medo de um pouco de solidão e suga o espírito de terceiros. Gente perigosa essa. Bem, mas ela estava lá. Assim como eu também, minutos depois dela entrar. Mas não a encontrei. Pedi um drink e ouvi um sussurro.
- Você é maníaco, ou o quê?
Me virei e me deparei com os olhos gigantes da minha obsessão. Olhos do diabo. Quentes e revigorantes como um show dos Stones, apesar de eu nunca ter ido a um show deles.
- Sou – respondi.
Ela encostou sua boca de leve na minha e falou que era mais maníaca e tomou todo meu drink e me puxou pelo braço até a entrada do banheiro.
Ela tirou duas pílulas cor-de-rosa da bolsa. Tomou uma e me ofereceu outra. Engoli e nos beijamos. Senti que ficava como se estivesse com febre. Quando abri os olhos havia outra garota ao lado dela. As duas começaram a se beijar. Pararam e me encararam.
- Vai lá buscar algo pra bebermos.
Voltei para o bar e não havia mais ninguém. A música continuava. Mas o bar vazio. Voltei para o banheiro. Vazio. Me sentia meio tonto. Fui até o bar e servi eu mesmo uma dose de Jack Daniel’s. A música parou. As luzes apagaram e eu dormi esperando que, ao acordar, estivesse em minha casa para convidar alguém que fizesse com que eu não fosse mais sozinho no bar.

VESTIU A CAMISA


Sua convicção daria inveja se não o fosse o fato de ser uma perda de tempo. No fundo até sabia disso, porém, o medo de aceitar a realidade o fazia insistir. E assim todos continuavam se alimentando daquele seu comprometimento um tanto abobalhado.

FAÇA A SUA VONTADE


- Não acredito que você sacou toda grana que era para a faculdade do nosso filho e entregou para aquele bando de filha da puta da igreja?
- Calma, baby. Não foi para a igreja. Foi para Deus.

O ENCONTRO


É verdade que eu não queria nem um pouco ir àquele encontro. Coisa armada, sabe? Um casal de amigos iria apresentar essa tal de Leila. Montava na grana, diziam. Me alertaram, porém, que ela tinha umas manias estranhas, e por isso ninguém ficava com ela, tendo em vista que era uma mulher muito bonita em seus 1,78m de altura e 68kg distribuídos em dois pares de longas pernas . Entretanto, eles diziam ter certeza de que eu era a pessoa certa e que seria bom para esquecer minha ex-namorada.
Às 22h em ponto, Leila apareceu.
- Oi, Lê – cumprimentaram juntos meu casal de amigos - , senta aí.
Nos apresentaram. Rimos os quatro de maneira social. Bebemos.
Analisei durante toda a noite a tal Leila, buscando encontrar algo que mostrasse alguma de suas manias. Nada. E já começava e gostar da ideia de ter ido ao encontro.

Ao sair pegamos uma garrafa de vinho e fomos para seu apartamento. Leila e eu.
Assim que passamos pela porta Leila me agarrou com uma selvageria que acabei deixando o vinho se quebrar no chão. Ela não deu a mínima e me atirou no chão também. Pediu para eu lhe dar um soco. Era pra ser um soco. Recusei assustado. Ela puxou uma faca da bolsa e me ameaçou. Acertei um direto em sua boca.
- Desculpa, desculpa – falei tentando levantá-la.
Ela sorriu com a boca vermelha de sangue e pediu para eu continuar. Tentei levantar para ir embora, mas ela me acertou de arranhão no braço. Acertei um ganho de esquerda em seu estômago e ela foi pra lona. Ela ficou me olhando com uns olhos enlouquecidos e de repente eu não consegui parar de acertá-la, até que ela ficou imóvel. Respirava. Peguei minhas coisas bati em retirada.
De manhã recebo uma mensagem de Leila agradecendo pela noite ótima. Apaguei a mensagem e liguei para minha ex.

À GRANEL


- Então aqueles ali são os seres humanos?
- Não, não... são aqueles outros ali, ó.
- Uhum... Ok. Vou querer cinco.

COMO POMBOS


Parecia se excitar ao ver todos lamberem o seu rastro. Seu ego latejava tanto que era possível sentir as vibrações daquela alma crua preencherem cada metro quadrado onde os demais se debatiam como pombos por alguma migalha, mesmo sabendo que ela não viria.

EGOS VENCIDOS


Achava incrível a forma que eles se entregavam. A maneira como dedicavam horas de suas curtas vidas em troca de promessas de um reconhecimento. Em troca de um agrado para afagar seus egos vencidos.
Assistindo todo aquele circo até chegou a pensar, por um segundo, que estavam certos. Por sorte, foi apenas um segundo. O mesmo tempo que levou para dar o fora dali.

O SACRIFÍCIO


A mulher -Na frente do lugar estava apenas escrito “magia para todos os fins”. Entrei.
- Bom dia – falei.
 que depois se apresentou como madame Vick - que estava em uma mesa em volta de velas apenas me apontou a cadeira em sua frente. Me sentei e ela deu uma tragada em seu charuto.
- Você já conhece nosso trabalho? – perguntou com a voz encatarrada.
- Não, não. Eu queria saber como funciona.
Ela me explicou alguns procedimentos, formas de pagamento e, claro, falou sobre o sacrifício. Era simples. Bastava eu escolher alguma pessoa próxima para que o diabo ficasse com sua alma. Uma mão lava a outra.
Falei sobre meu objetivo e então ofertei minha esposa para o cabra. Assinei os papéis e fui para casa. Madame Vick havia me dito que em até três dias úteis estaria tudo resolvido. Inclusive a viagem de Lívia para a casa do capeta.
Quando acordei, numa sexta ensolarada, Lívia estava morta na cama. Ansioso, fui para meu emprego. Cuidaria dela depois. Durante o caminho havia um acidente. Quando me aproximei, quase não acreditei. Me sócio estava ali agonizando no asfalto. E ainda estava no segundo dia útil. Serviço eficiente.
Antes de meu sócio apagar, ele sussurrou para eu pegar algo no seu bolso. Era um cartão escrito Madame Vick – “magia para todos os fins”. No verso, meu nome estava escrito com sangue, igual ao que Vick me entregou com o nome do meu sócio no dia em que contratei seu serviço.
Coloquei o cartão no bolso e apenas voltei para casa. Já havia comprovado que o serviço não falhava.

A MORTE DO CLICHÊ


Duarte queria ser escritor. Então leu para mim um pedaço de seu mais novo “trabalho”. Desta vez era um pedaço de um conto sobre uma mulher que se apaixonava pelo seu professor, mas ele era casado e ela sentia-se feia e tinha que cuidar da mãe doente.
- “Sua profunda melancolia alimentava uma alma cansada de tentar buscar no âmago do seu ser a razão por não ter seu amor correspondido. Um punhal talvez resolvesse, pensou, encarando uma única flor que coloria o seu jardim, contrastando com o escuro do seu coração”.

Me encarou com o brilho nos olhos, com uma assustadora convicção.

Acendi meu cigarro e olhei para sua cara de perdedor e falei que ele nunca seria um escritor. Pode parecer cruel, mas é apenas a verdade. Se todas as pessoas dissessem a verdade, não existiria tanto mau gosto neste mundo.

Três dias depois, recebi um e-mail do Duarte.

“Algumas estrelas brilham, mas não são vistas. Por isso o melhor é se apagarem de vez”.

Havia uma foto de uma forca em anexo. Dias depois soube que o imbecil tinha mesmo se enforcado. Seu suicídio conseguiu ser mais clichê que os seus textos.

Sua mulher me procurou. Estava calma, mas me acusava de ser o culpado da morte de seu marido. Encontrei um texto dele que eu ainda não havia colocado no lixo e li para ela. Buscando interpretar ao máximo o contexto. Ela sentou-se em uma cadeira tentando conter o riso.

- Eu já tinha lido as coisas dele, mas confesso que nunca tinha me dado conta do tamanho da merda que eram

Ela pegou sua bolsa e ao se despedir me deu seu telefone e falou em marcamos uma janta “uma hora dessas”.

- Pode ter certeza que sim – falei e a encarei como um galã de novela. Mas ao menos eu soube o momento de usar um clichê.

MILIGRAMAS


Chegou em casa e a encontrou chorando no quarto.
- O que houve, baby?
Ela acendeu um cigarro em silêncio e mostrou o frasco vazio de comprimidos.

FALTA DE OPÇÕES


- Por nada você não ficaria lá até essa hora.
- Muito menos aqui.

UMA TARDE NA PRAÇA


Eu estava lendo o jornal na praça. Gostava de ficar por ali. Observava os aposentados buscando velhas lembranças enquanto disputavam uma partida de damas. As garotas de sorrisos fáceis e suas saias. Também havia os que ali viviam, enganando a morte entre um gole e outro. Havia os loucos. Na praça todos os perfis de seres humanos se encontram.
E quando eu estava me retirando, um cara vinha correndo em minha direção e uma mulher logo atrás dele dizendo que ele era um ladrão que havia lhe roubado a bolsa. Ao passar por mim eu chutei suas pernas e o homem aterrizou.
- Segura ele – gritou a mulher.
Quando ela chegou, chutou a cara do ladrão arrancando dois dentes. O homem levantou-se e saiu correndo, deixando os dentes ali no chão.
- Muito obrigada, moço.
-Ele vinha na minha direção. Qualquer um faria o mesmo.
- Meu marido não faria. O que ele faz mesmo é beber. Cada dia em um bar. E acha que eu tenho que acompanhar. Leva bebida escondida até para dentro do cinema.
Identifiquei na hora um o perfil psicótico, algo meio histérico. Então acendeu um cigarro e me convidou para sentar um pouco no banco. Quando ela terminou de reclamar colocou a mão em minha perna e jogou fora o cigarro.
- Vamos ali no meu carro – falou tremendo.
Ela parecia ainda mais psicótica, me fazendo pensar que eu não sairia vivo. Mas saí. E quando terminamos, simplesmente parecia que outra mulher estava ali. Uma zenbudista de fala mansa. Tirou um frasco de comprimidos da bolsa e tomou uns quatro. Me deu uma nota de cem e abriu a porta para que eu descesse. Não falou nada.
- Posso ficar com teu telefone? – perguntei, enquanto ela fechava a porta na minha cara e arrancava.
Voltei para praça e fiquei olhando para os dentes, catalogando mentalmente todos os tipos que aparecem por ali.

TEMPERAMENTO IMPULSIVO COMPULSIVO


- Você gostaria de alguma coisa, baby?
Ela serviu o chá e o encarou
- Que você desse o fora agora.

TORRADAS COM OVO


Existem pessoas que costumam pensar nas consequências de seus atos. Eu não. Por isso resolvi aceitar o trabalho sem pensar duas vezes. Ainda mais com adiantamento.
- Cara, vê se faz direito isso? – perguntou Toni, estalando os dedos de nervoso.
- Já te disse. Confia em mim. Você nunca mais vai ouvir falar nela. Agora relaxa e me paga um trago.
Ficamos bebendo e combinando como seria feito. Expliquei meus métodos para tentar o convencer que não havia risco nenhum.
- Você está falando com um profissional – falei, acendendo um cigarro e olhando para o teto demonstrando minha frieza inescrupulosa de assassino.
No dia eu levantei mais cedo. Corri 5 km. Tomei um banho demorado. Passei o café e fiz torradas com ovo. Comi na sacada assistindo as pessoas e refletindo sobre as fraquezas de cada uma. O que as levavam àquela busca incansável por algo inalcançável? Eu não sabia. Então me vesti e fui fazer o que tinha quer ser feito. Matar Dora.
Eu a esperaria sair de casa no horário que Toni havia me dito e a abordaria no portão. No entanto, ela não aparecia nunca, e, sem eu perceber, senti o toque frio na minha nuca. Dora havia me pego de surpresa.
- Sei quem você é, Ed. Sei também que Toni te mandou aqui.
Fiquei em silêncio. Entramos em seu carro e fomos até a minha casa. Eu tive que ligar para Toni e chamá-lo. Quando chegou, Dora o esperava atrás da porta e fez o mesmo que fez comigo. Colocou a arma em sua nuca. Ele virou-se e levou um coronhaço no queixo que o jogou no chão. Ela atirou em seu saco e o deixou gritando e sangrando ali. Aproximou-se de mim e me beijou.
- Eu já tinha te visto andando com o Toni. Também sabia de seus trabalhos. E isso sempre me excitou. Eu iria te chamar para acabar com ele e fugir comigo. O que seria mais lucrativo para você.
- Ainda dá tempo.
Ela me deu a arma. Aproximei-me de Toni e atirei em seu peito. Dora e eu fomos para sua casa e fizemos algumas torradas com ovo.

CONFISSÃO


- Nossa! Você soube que mataram a dona Selma e fizeram uma limpa no seu cofre?
- Sim. Fui eu.

A SAÍDA É ADIAR


Não importava nem um pouco se estavam certos ou errados. Não precisava de respostas. Nem de opiniões vagas sobre conceitos a cerca da felicidade e da morte.
Para quê? - pensou.
E voltou a deitar antes que a chamassem para a realidade novamente.

DESLIGUEI E LEVANTEI PARA TOMAR O CAFÉ DA MANHÃ


- Alou.
- Oi, Beto.
- Deve ter sido engano, aqui não tem nenhum Beto.
Mas a mulher insistiu que eu era o tal de Beto. Ao menos tinha uma voz bonita.
- Ai, Beto, para de sacanagem. Bem, estou ligando pra matar a saudade. Você desaparece assim. Então, o que anda fazendo?
- Bem... eu não sou o Beto.
- Ai, você é louco mesmo, né? Sempre te achei o mais interessante por isso. Você faz umas coisas que a gente não sabe se é sério ou se é brincadeira. Espontâneo. Ai, meu deus, que saudade. Então, vamos nos ver?
- Tá...vamos, mas eu...
- Ok. Às oito no Bell’s.
Eu já estava tomando a terceira cerveja quando apareceu uma ruiva tatuada dentro de uma calça de couro. Quando me viu seus olhos brilharam. Me abraçou.
- E aí, quanto tempo?
- Pois é.
- Cada vez que te vejo você está melhor.
Conversamos um pouco e fomos para sua casa. Bebemos uísque e logo estávamos na sua cama. Cara de sorte esse Beto, pensei. Pela manhã, ela trouxe um álbum de fotos.
- Lembra disso?
Meu corpo tremeu quando me reconheci na foto. Estava abraçado com essa mulher em uma espécie de casa de praia. Algo meio rústico. Parecíamos felizes.
- Hum...
- Tá, eu preciso ir. Tenho que fazer umas fotos daqui a pouco. Pode ficar à vontade. Tem café pronto, tá? – falou e saiu rebolando enquanto prendia o cabelo.
Me estiquei na cama, acendi um cigarro e fiquei olhando para o teto tentando pensar em nada. Meu celular tocou.
- E aí, Ed, seu filho da puta. Que tá fazendo?
- Desculpe, quem está falando é o Beto. Não tem nenhum Ed aqui.
Desliguei e levantei para tomar o café da manhã.

FRACASSO EM BOA HORA


Tentou. Tentou de verdade ficar ouvindo cada um querendo ser o mais espetacular possível. Um amontoado de almas congeladas sendo carregadas umas pelas outras através da troca mútua de egocentrismo. 
Por sorte não passou de uma tentativa fracassada.

EXERCITANDO O DESAPEGO


Quando chegamos na sua casa, levei um susto ao descobrir que ela não tinha tevê. Na verdade, nem poltronas. Sequer cadeiras. Apenas algumas almofadas espalhadas pelo chão.
- Fica à vontade – ela disse.
O problema é que pessoas gordas como eu, têm dificuldades para sentarem-se no chão. Falta flexibilidade, o estômago esmaga. Dá falta de ar. Uma vez vomitei em um restaurante japonês, onde as mesas eram daquelas baixinhas, e é preciso sentar-se no chão em almofadinhas. Sem contar que a comida era uma bosta. Talvez fossem as pessoas presentes que a tornavam indigesta. De qualquer forma, ali estava eu já passando mal no chão da casa da Vera enquanto ela voltava da cozinha com uma garrafa de vinho.
- Você está suando. Tá tudo legal?
- Tô bem, tô bem – sorri envergonhado.
- Então, o que achou da minha casa?
- Muito legal... alternativa ela, né?
- Ai, sim. Eu aprendi a me desapegar, sabe? Você já parou para se perguntar do que você realmente precisa para viver? Faça um teste. Pense em tudo o que você tem. Você realmente NECESSITA disso tudo? Claro que não.
Haviam me dito que Vera estava numa onda de desapego depois que começou ler uns livros baratos de budismo. Eu só não imaginava que ela já estaria naquele nível em que parte do cérebro já está tomado por uma ilusão de que sua vida mudou, quando na verdade continua e continuará na mesma.
- Li esses dias que uma mulher largou tudo, vendeu seus bens e foi para o Tibet. Hoje ela é mestre de Yoga – continuava incansável.
Vera levantou-se e começou a mostrar algumas posições de Yoga que estava aprendendo. Mas então ela escorregou e bateu com a cabeça. Apagou na hora. Vi que respirava e aproveitei para ir embora dali, fazendo meu primeiro exercícios de desapego.

INCOERÊNCIAS


- Nossa. Não entendo nada do que essa gente tanto fala e fala e fala.
- Isso é porque nem eles mesmos entendem.

VIAGEM AO MÉXICO


Eu não pensava em trabalhar porque Eloísa me sustentava. Ela tinha quarenta anos a mais do que eu. Estava acabada. Sempre viveu na noite se drogando e bebendo. Mas ela gostava mesmo era da minha companhia. Eu não precisava trepar com ela. Eu tinha carro. Moto. E cartão de crédito sem limites. Vivia bem. Ela sabia também que eu tinha namoradas, como Leila, mas eu evitava leva-las para casa por respeito. Eloísa era uma boa senhora. Quando ela me disse que estava com aquela doença, me partiu o coração de verdade. Digo de verdade, pois ninguém acreditava que eu realmente gostasse de Eloísa. Claro, o fato de eu ser rico e não precisar trabalhar e ter que encarar pessoas que eu não gostasse apenas para ganhar um salário de merda no final do mês era o principal motivo de eu estar com ela, mas com o tempo adquiri um apego. Confesso que uma vez tentamos tomar banho juntos. Mas não rolou. Ela tinha vergonha de seu corpo.

Mas então por causa da doença ela me chamou para uma conversa e disse que não queria sofrer e me pediu para eu matá-la quando ela não conseguisse mais levantar da cama.

- Não fale besteira, Elo.

- Eu sempre vivi a minha vida intensamente. Não me arrependo de nada. E você acha que agora vou ficar entrevada numa cama me cagando e me mijando até a morte?

Na verdade ela tinha razão. Então concordei com a eutanásia. E semanas depois ela já havia piorado muito, não comia, mal falava, e finalmente combinamos que faríamos.

Uma noite eu sentei na cama ao seu lado. Sorrimos sem falar nada. Quando fui colocar a agulha no seu braço ela meu deu um tapa.

- Seu filho da puta. Você iria mesmo me matar, monte de bosta? Nem ao menos insistiu para eu desistir. Pensou que ficaria com meu dinheiro e iria para o México com aquela vadia da Leila como sempre quis? Pois está enganado.

A mulher levantou-se e tirou uma arma debaixo do travesseiro e apontou para mim. Comecei a chorar de verdade e disse para ela me perdoar. Ela atirou no chão e começou a tirar a roupa. Então se deitou na cama e me chamou, com a arma ainda apontada. Quando ela chegou ao orgasmo, soltou um último suspiro rouco e ficou imóvel. Verifiquei o pulso. Morta. Vesti minha roupa e chamei a ambulância. Eu estava mesmo em choque, juro. Foi sempre uma boa senhora. Mas agora eu iria poder ir para o México com Leila.

RECONCILIAÇÃO


Em plena segunda-feira Cláudia me ligou. Estava chorando muito
- Mataram o Vítor – me disse.

Vítor era seu namorado. E Cláudia minha ex-esposa que sempre me ligava em situações difíceis. Ou para pedir dinheiro, dizendo que era para comprar roupas para o Júnior, nosso filho. Mas eu sabia que ela gastava tudo em cocaína. Mas não me importava, pois eu ainda a amava.
- Como assim? – fingi preocupação.
- Assalto. Esfaquearam várias vezes pelas costas. Ai, mas tá estranho, pois não levaram nada dele.
- Calma, amo... digo, Cláudia. Já estou indo aí.
No caminho passei na casa do Jorjão.
- Cara, não precisavam ser facadas – reclamei. - Eu disse que não era para o homem sofrer. Podia ser um tiro na cabeça.
Jorjão me ofereceu uma cerveja.

- Calma, Ed. O que importa é que deu certo. E a vadia?

- Não fala assim da Cláudia. Estou indo pra lá agora. No caminho já pego o teu dinheiro e te entrego amanhã. Pode ser?

Jorjão concordou e voltou para frente da tevê. E eu fui ver Cláudia. Quando cheguei ela me abraçou. Eu fiz um carinho em seus cabelos. Ela adorava. Então beijei de leve sua bochecha, depois toquei em seus lábios. Ela não recuou e nos beijamos. Júnior apareceu e ficamos os três abraçados. Éramos uma linda família.

ESTOU ENLOUQUECENDO, NÃO ESTOU?


Lívia tinha medo até mesmo de sair para o quintal de sua casa. Havia tentado vários tratamentos, mas nada adiantava. Ela congelava e entrava em surto ao sair na rua. Na verdade aquilo até me parecia interessante. Pois não era preciso inventar desculpas para não ir a festas, encontros, ver pessoas, e, principalmente, não era preciso ir ao trabalho. E ninguém a cobraria por isso. Além do mais, recebia um pequeno benefício devido sua doença. Eu fazia visitas toda semana e depois de bebermos e treparmos eu até a convidava para ir tomar um ar na rua, mas não adiantava. Ela começava a chorar só de pensar. Eu a entendia. Eu não tinha agorafobia, mas também sentia vontade de chorar ao enfrentar a realidade cotidiana. Quem não tem, não é mesmo? Claro que existem aqueles que pensam ser importantes em algo e se contentam com os farelos dos outros e ainda se divertem com isso.

Num domingo fui ver Lívia, e ela estava sentada em frente de casa.
- Lívia? O que houve? – perguntei contente por ela parecer ter melhorado.
- Quem é Lívia? – me respondeu um pouco assustada. – E quem é você?
Ela se levantou e correu para dentro. Fui atrás. Então ela apareceu com uma faca e acertou de raspão o meu pescoço. Recuei e ela avançou novamente. Estava enlouquecida. Quando então caímos no chão, tirei sua faca e ela me encarou com aquele seu velho olhar de medo.
- Tudo bem – eu disse. – Vamos para dentro.
- Estou enlouquecendo, não estou? – me perguntou chorando.
- Claro que não. Vamos deitar um pouco.
Depois de um cigarro ela se acalmou. Desci para a sala e liguei para a clínica, conforme recomendações da psiquiatra, caso ele agisse daquela forma. Já era esperado. Dentro de algumas horas Lívia estava sendo levada em uma camisa de força para sua internação. Liguei para a sua irmã, Leila.
- Oi. Eles já a levaram - disse eu.
Quando Leila apareceu, ela foi direto abrir o cofre da família. Após ela tirar o dinheiro e as joias eu dei um tiro na sua testa e liguei para a psiquiatra de Lívia.
- Está feito – falei
- Ok. Estou indo.
Servi um drink e fiquei esperando.

FILHO DA PUTA DE UMA FIGA


Eu andava desesperado. Minha esposa havia falecido e eu perdido o emprego. E estava devendo uma grana para um tipo de gente que detestava devedores. Aliás, quem não detesta? O problema era que eles não aceitavam que devedores vivessem. Eu já estava pensando em suicídio enquanto tomava uma cerveja fiado quando um senhor fez sinal para eu sentar em sua mesa. Foi estranho, pois senti que precisava obedecer, então peguei minha bebida e fui até lá.
- Olá – falei.
O velho cheirava a mofo. Tirou os óculos escuros e me encarou.
- Eu posso acabar com o peso dessa sua vida de merda agora mesmo.
Nem me perguntei como ele sabia que eu estava fodido. Algo me atraiu e eu apenas ouvi, acreditando nele, assim como fazem aquelas pessoas ignorantes que depositam dinheiro na conta de um Deus que irá lhes alugar um kitnet no céu quando elas morrerem. Parecia um feitiço. Vai ver ele fosse o diabo. Foda-se, pensei.
- Bem, eu adoraria, mas antes me diga, você é o diabo? – perguntei irônico.
Ele deu uma risada com seus dentes amarelos e apenas tocou em mim com sua mão fria.
- De qualquer forma, você não iria recuperar minha vida de graça. E eu já estou devendo até a alma – argumentei desanimado.
- Pois é dela que eu preciso. Sua alma – ele sorriu. – Me alimento da alma de perdedores como você.
- Só isso?
- Sim.
- Ok. Toda sua – sorri.
O velho me segurou pelos ombros e eu senti algo como uma descarga elétrica. Minha visão escureceu. Senti o coração acelerar. Pensei que ia morrer quando senti uma leveza no corpo. O homem havia sumido da minha frente.
Quando cheguei em casa, Lívia – minha mulher que eu pensava estar morta – estava preparando o jantar. Estava de camisa e calcinha. Fiquei apenas olhando.
- Oi, baby – falou. – Ligaram do seu trabalho.
- Que trabalho?
- Ai, baby! Já tá locão? Bem, eles pediram para você retornar.
Liguei para o trabalho que eu tinha e falei com meu ex-patrão.
- Ed, seu filho de uma puta – gritou ao telefone. – Os investidores fecharam aquele negócio que você havia sugerido. Desculpe por duvidar de você. Bem, estamos ricos. Amanhã nos falamos. E vamos comemorar. Filha da puta de uma figa.
Desliguei e fiquei parado tentando assimilar as coisas. Minha esposa gritou da cozinha dizendo que o jantar estava pronto. Ela havia feito lasanha. Eu adorava lasanha.

PROTAGONISMOS


Não significava que ela fosse impaciente. Apenas não concordava com a postura adestrada que insistiam em lhe impor. Como se fosse igual a todas aquelas pessoas que não paravam de falar sobre esperanças que nunca seriam concretizadas, sobre a grana que nunca conseguiriam, sobre o emprego onde acreditavam estarem seguras.
Não, ela definitivamente não era igual a todos que acreditavam serem protagonistas de suas vidas. Mas assim preferia, pois poupava esforços que sabia não levariam a nada.

MAL ENTENDIDO


Ele apareceu tropeçando e quase caindo sobre minha mesa. Completamente bêbado.
- Acabei – falou.

- Que bom. Agora te controla.
Ele soltou uma risada e todos olharam. O chutei por de baixo da mesa.
- Acabei – repetiu.
- Entendi, porra. Não precisa repetir.
- Se entendeu, deve entender também que agora você está me devendo.
- Vamos lá buscar a grana – falei, me levantando.
Tive que segurá-lo pelo braço para não cair de bêbado. Suas calças estavam molhadas. Estava tão humilhante quanto as pessoas que trabalham dez horas por dia e ainda aceitam deixar suas famílias em casa para fazerem horas extras enquanto o chefe está no motel com a estagiária.
Quando chegamos no carro, tive que revistá-lo. Nada. Então liguei para o Matias. Ele não imaginava que eu tinha um contato como Matias. E como era de se esperar, o serviço não havia sido feito.
- Você conhece o Matias? – perguntei com muita calma.
Ele emitiu um sussurro incompreensível de bêbado.
- Pois ele é o cara que acabou de autorizar o teu assassinato por não ter feito o nosso combinado.
- Eu fiz. Onde está a grana?
Dei um tiro em seu peito e o joguei para dentro do porta-malas. Meu telefone tocou. Era o Matias.
- Cara, houve um engano – disse ele. – O serviço foi feito, sim.
Acendi um cigarro esperando o sol nascer e liguei para Lisi para avisar que eu chegaria mais tarde.

ESPETÁCULOS


Decidiu ficar porque sabia que sempre, sempre. Mas sempre eram as mesmas conversas sobre os mesmos assuntos que faziam surgir os mesmos sorrisos naqueles mesmos rostos apáticos.
E o mais incrível era que acreditavam em todo aquele circo e aplaudiam os seus próprios espetáculos, alimentados por ilusões que serviam apenas como apoio para sentirem-se vivas. Sem saber que esse sentimento também não passava de ilusão.

O ENCONTRO


- O que você faz?
- Sou músico.
- Tá, mas você não trabalha?

PORCOS



Não fazia a mínima ideia do que ela queria. Mas percebi pela sua voz que estava muito tensa. falou apenas para eu a esperar no lugar de sempre. Quando cheguei ela bebia um Martini.

- Estamos mortos – disse ala. A coitada tremia.

- Relaxa. O que houve?

- O Ed descobriu tudo. Ele apontou a arma pra mim ontem à noite e disse que vai nos matar e nos dar para os porcos.

- Você já viu esses porcos? – perguntei.

- Sim. Enormes. 

Pedi um uísque sem gelo.

- Bem, precisamos agir rápido, então. Volte para casa e arrume suas coisas. E amanhã fugimos – falei e nos despedimos.

Quando cheguei em casa, havia um porco velho no meu quintal. Enorme com cara de louco. Recuei, voltei para o carro e liguei para Lia. Deu na caixa postal. Olhei no retrovisor e vi um carro preto se aproximando. Arranquei, e ao dobrar a esquina quatro homens em motos me cortaram a frente. Acelerei, os derrubando. Sempre fui um bom motorista, então dobrei rápido em uma esquina e vi o carro preto batendo de frente com um caminhão de lixo. Eu estava com o tanque cheio, então dirigi para o oeste. The west is the Best. O sol se despedia laranja e gordo. E eu tinha uma garrafa de conhaque quase cheia dentro do porta-luvas. Consegui parar de pensar nos porcos.

RESTOU FAZER O MESMO



Sabia que teria gente demais. Sabia que ouviria besteiras demais. Sabia que sentiria vontade de sair correndo e encher a cara na primeira espelunca que encontrasse. Por isso levou em seu casaco uma pequena garrafa de uísque. Ficou distante para que não a vissem.

Não adiantou.

Aproximaram-se com sorrisos e discursos patéticos que a obrigaram a desistir de manter o mínimo de bom senso. Afinal era isso que todos faziam.

DOIS FILHOS E UM CACHORRO



- É melhor você decidir o que pretende da sua vida. Fica sentado aí o dia todo. Não quer...

Então eu saí sem falar nada e fui beber na rua. Depois de algumas horas e muitas doses, refleti que ela estava certa. Eu precisava mudar minhas atitudes. Tomar jeito. Voltei para casa confiante. Bêbado, mas confiante. Havia um bilhete sobre a mesa. Bia havia ido embora. Mando alguém buscar minhas coisas, dizia a cartinha, além de ofensas de variados níveis. Joguei o papel no lixo e comecei a chorar. Peguei a arma e coloque na minha cabeça.
Tocou o telefone. Soltei a arma e atendi. Era Bia. Também estava chorando.

Depois de alguns algumas horas ela estava de volta em casa. Nos beijamos e Trepamos e fizemos promessas. Até filhos combinamos ter. Dois. Além de um cachorro.

Ela me acordou com café na cama e me deu o número de um amigo seu que gostaria de conversar comigo sobre um emprego. 

- É uma ótima oportunidade no banco. Imagina você todo lindo de terno e gravata? – ela falou com brilho nos olhos. – À tarde vai ter uma feira de doação de animais ali na praça. Podemos ir também – continuou.

Fui até o banheiro disfarçando minha ressaca e vomitei arrependido de não ter apertado o gatilho na noite anterior. 

UMA DOSE DE NADA



Como eu já estava cansado de ouvir as pessoas mentirem umas para as outras com o objetivo de tentar ser alguém que elas gostariam de ser - mas que por falta de dedicação ou pura incompetência não conseguiam -, eu resolvi dizer a verdade para Liza sobre o fato de eu não ter um emprego. E também não querer ter um. Ela vestiu-se e disse ter lembrado de um compromisso e foi embora. 

Virei para o lado e dormi até às duas da tarde com um sol lindo entrando pela janela. O céu estava limpo. Dia agradável. Daqueles em que as pessoas sorriem para o caixa do supermercado. Liguei o rádio e fiquei pelado ouvindo Beatles enquanto as pessoas lá fora acreditavam estarem cumprindo algum papel importante que lhes traria alguma recompensa, quando na verdade, estavam apenas fugindo de si próprias.

ENGANO


Quando eu estava na escola, lá pela quarta série, a professora de português Letícia, uma morena de olhos claros de quase dois metros me assediou dentro da sala de aula. Após o sinal, ela disse para eu esperar, pois precisava falar comigo. Então eu comecei a ficar até depois de todas as aulas de português.

Lembrei-me dela porque a encontrei esses dias enquanto eu tomava umas cervejas após o trabalho. Apesar de velha, continuava bela. Era uma mulher vaidosa. Estava bebendo sozinha no balcão do bar.

- Letícia?

- Sim.

Ela demorou a me reconhecer, afinal eu estava muito mais bonito do que no tempo da escola. Então me apresentei e a abracei. Eu disse em seu ouvido que sentia saudade de suas aulas. Ela sorriu levemente envergonhada.

- Você era um bom aluno – falou me encarando.

Paguei alguns drinks, conversamos e a convidei para ir até minha casa.

Foi quando chegamos que ela tirou uma arma da bolsa e apontou pra minha cara, me amarrou em uma cadeira e ligou para alguém. Ela me perguntou o endereço exato e em poucos minutos chegaram dois homens e roubaram tudo da minha casa. Inclusive minha coleção de vinis.

- Por que você fez isso, Letícia?

-Talvez porque eu não seja a mesma Letícia. Professora? Eu nem se quer terminei o ensino médio.

Ela pegou as chaves do meu carro e foi embora com os dois homens.